Hiperplasia prostática benigna: sintomas e tratamento
A hiperplasia prostática benigna (HPB) é uma das condições urológicas mais comuns entre os homens acima dos 50 anos. Embora o nome possa soar intimidador, trata-se de um aumento não canceroso da próstata que, quando diagnosticado e tratado corretamente, tem excelente prognóstico. Compreender essa condição é o primeiro passo para buscar o cuidado adequado e manter a qualidade de vida.
No Brasil, estima-se que mais de 50% dos homens com 60 anos apresentem algum grau de HPB, e esse número sobe para 90% após os 80 anos. Apesar de tão prevalente, muitos homens ainda demoram para buscar ajuda médica — seja por desconhecimento, seja por constrangimento. Neste artigo, o Dr. André Matos, urologista especialista em doenças da próstata, explica tudo o que você precisa saber sobre a hiperplasia prostática benigna.
O que é hiperplasia prostática benigna?
A hiperplasia prostática benigna é o crescimento não canceroso do tecido da próstata. A próstata é uma glândula do tamanho de uma noz que fica localizada logo abaixo da bexiga e envolve a uretra — o canal por onde a urina passa ao sair do corpo. Quando essa glândula aumenta de tamanho, ela começa a comprimir a uretra, dificultando o fluxo urinário. A Sociedade Brasileira de Urologia reconhece a hiperplasia prostática benigna como uma das principais causas de consulta urológica no país.
É importante ressaltar que “benigna” significa que não há células cancerosas envolvidas. A HPB é uma condição separada do câncer de próstata, embora ambas possam coexistir no mesmo paciente. O crescimento da próstata é considerado uma parte natural do envelhecimento masculino, mas quando causa sintomas significativos, o tratamento se torna necessário.
A próstata passa por duas fases principais de crescimento: a primeira durante a puberdade, quando dobra de tamanho, e a segunda a partir dos 25 anos, quando começa um crescimento lento e gradual que persiste por toda a vida. Na maioria dos homens, esse segundo período de crescimento é que resulta na HPB décadas depois.
Por que a próstata cresce com o envelhecimento?
A causa exata da hiperplasia prostática benigna ainda não é completamente compreendida, mas sabe-se que os hormônios masculinos — especialmente a di-hidrotestosterona (DHT), derivada da testosterona — desempenham um papel central. Com o envelhecimento, a proporção entre testosterona e estrogênio se altera, e isso pode estimular o crescimento das células prostáticas.
Fatores genéticos também influenciam: homens com histórico familiar de HPB têm maior probabilidade de desenvolvê-la. Outros fatores de risco incluem obesidade, sedentarismo, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica. Homens que mantêm um estilo de vida ativo e peso corporal saudável tendem a apresentar sintomas menos severos.
Estudos mostram que homens castrados antes da puberdade não desenvolvem HPB, confirmando o papel dos hormônios andrógenos no processo. No entanto, isso não significa que a redução hormonal seja a única ou a melhor estratégia terapêutica — existem tratamentos muito mais eficazes e seguros disponíveis atualmente.
Sintomas da hiperplasia prostática benigna
Os sintomas da HPB são conhecidos como sintomas do trato urinário inferior (STUI) e podem variar de leves a graves. Nem todos os homens com próstata aumentada apresentam sintomas — o tamanho da próstata nem sempre se correlaciona diretamente com a intensidade dos sintomas. Um homem com próstata muito aumentada pode ter poucos sintomas, enquanto outro com aumento moderado pode sofrer bastante.
Os sintomas obstrutivos incluem jato urinário fraco ou intermitente, dificuldade para iniciar a micção, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, e gotejamento após urinar. Já os sintomas irritativos incluem urgência urinária (vontade repentina e intensa de urinar), aumento da frequência urinária — especialmente à noite (noctúria) — e, em alguns casos, incontinência urinária de urgência.
Em casos mais avançados, a obstrução pode levar a complicações sérias como infecções urinárias de repetição, cálculos na bexiga, insuficiência renal e retenção urinária aguda — situação de emergência em que o paciente fica completamente incapaz de urinar. Por isso, buscar avaliação médica logo que os primeiros sintomas aparecem é fundamental.
Uma ferramenta muito utilizada para avaliar a gravidade dos sintomas é o Escore Internacional de Sintomas Prostáticos (IPSS), um questionário validado que pontua os sintomas urinários de 0 a 35. Escores até 7 indicam sintomas leves, de 8 a 19 sintomas moderados, e de 20 a 35 sintomas graves. Esse escore ajuda o urologista a definir a melhor abordagem terapêutica. Saiba mais sobre os sintomas em nosso artigo: Próstata aumentada: quais os sintomas que indicam que está na hora de ir ao médico?
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da hiperplasia prostática benigna começa com uma consulta detalhada com o urologista. O médico coleta o histórico dos sintomas, aplica o questionário IPSS e realiza o exame físico, incluindo o toque retal — procedimento simples e rápido que permite avaliar o tamanho, consistência e superfície da próstata.
Os exames complementares essenciais incluem o PSA (antígeno prostático específico), exame de urina e ultrassonografia de vias urinárias com medida do resíduo pós-miccional. O PSA ajuda a diferenciar HPB de câncer de próstata e a avaliar o risco de progressão da doença. A ultrassonografia mede o volume prostático e verifica se há resíduo urinário após a micção — um resíduo elevado indica que a bexiga não está se esvaziando adequadamente.
Em alguns casos, podem ser solicitados exames adicionais como urofluxometria (medição do fluxo urinário), urodinâmica (avaliação funcional da bexiga) ou ureterosciopia diagnóstica. Esses exames ajudam a planejar o tratamento mais adequado para cada paciente e a identificar outras condições que possam estar contribuindo para os sintomas.
Tratamentos clínicos e medicamentosos
Para casos leves a moderados, o tratamento inicial geralmente é medicamentoso. Existem duas classes principais de medicamentos usados para HPB: os alfa-bloqueadores e os inibidores da 5-alfa-redutase. Em muitos casos, os dois são usados em conjunto. Leia mais: Remédio para próstata aumentada: funciona? O limite entre o alívio e a cirurgia.
Os alfa-bloqueadores — como tansulosina, silodosina e alfuzosina — relaxam os músculos do colo da bexiga e da próstata, melhorando o fluxo urinário. Agem rapidamente, com efeito percebido em dias a semanas, mas não reduzem o tamanho da próstata. São especialmente úteis para pacientes com sintomas irritativos e obstrutivos.
Os inibidores da 5-alfa-redutase — finasterida e dutasterida — bloqueiam a conversão de testosterona em DHT, reduzindo o tamanho da próstata em até 25-30% ao longo de 6 a 12 meses. São mais indicados para próstatas volumosas (acima de 40 ml) e ajudam a prevenir a progressão da doença e a necessidade de cirurgia. Seu efeito é mais lento, mas duradouro.
Os inibidores da fosfodiesterase-5 (como o tadalafil) também têm indicação aprovada para HPB, especialmente em homens que também apresentam disfunção erétil associada. Outras opções incluem fitoterápicos como o extrato de Serenoa repens, embora a evidência científica para estes seja mais limitada. O tratamento medicamentoso precisa ser mantido indefinidamente, pois ao cessar o uso, os sintomas retornam.
Quando a cirurgia é necessária?
A cirurgia é recomendada quando os medicamentos não controlam adequadamente os sintomas, quando há complicações associadas à HPB — como retenção urinária recorrente, infecções urinárias de repetição, hematúria (sangue na urina), cálculos na bexiga ou comprometimento renal — ou quando o paciente prefere uma solução definitiva.
A decisão cirúrgica é sempre tomada em conjunto entre médico e paciente, levando em conta o volume prostático, a saúde geral do paciente, as preferências individuais e as comorbidades existentes. Felizmente, as técnicas cirúrgicas evoluíram enormemente nas últimas décadas, tornando os procedimentos muito mais seguros e com recuperação muito mais rápida.
A ressecção transuretral da próstata (RTU-P) foi por muito tempo o padrão-ouro cirúrgico. Nesse procedimento, um ressectoscópio é introduzido pela uretra e o tecido prostático obstrutivo é removido por cauterização elétrica. Embora eficaz, apresenta limitações para próstatas muito volumosas e riscos de ejaculação retrógrada e sangramento.
HOLEP: a cirurgia mais moderna para HPB
O HOLEP (Holmium Laser Enucleation of the Prostate — enucleação prostática com laser de holmium) representa o estado da arte no tratamento cirúrgico da hiperplasia prostática benigna. Diferentemente da RTU-P, que resseca o tecido em fragmentos, o HOLEP remove o tecido obstrutivo em blocos inteiros, de forma semelhante à cirurgia aberta, mas sem nenhuma incisão externa. Saiba mais: O que é a cirurgia HOLEP e para quem é indicada?
O laser de holmium é introduzido pela uretra e utilizado para enuclear (destacar) os lóbulos prostáticos da cápsula prostática. Esses blocos de tecido são então empurrados para a bexiga e triturados por um instrumento chamado morcelador, sendo retirados pela própria uretra. O procedimento é realizado sob anestesia e dura em média 1 a 2 horas, dependendo do volume prostático.
As vantagens do HOLEP são inúmeras: é eficaz para próstatas de qualquer tamanho (inclusive as muito volumosas, acima de 100g, que antes exigiam cirurgia aberta), tem menor taxa de sangramento, menor tempo de cateterização e hospitalização, e resultados duradouros. As taxas de reoperação são muito menores do que com outras técnicas. É considerado o tratamento com melhor custo-benefício em longo prazo.
Rezum: alternativa minimamente invasiva
O Rezum é uma técnica minimamente invasiva que utiliza vapor d’água para destruir o excesso de tecido prostático. Pequenas injeções de vapor são aplicadas diretamente na zona de transição da próstata por meio de um dispositivo transuretal, causando a morte celular por necrose de coagulação. Ao longo de semanas, o tecido tratado é absorvido pelo organismo, reduzindo o volume prostático e aliviando a obstrução.
O Rezum é especialmente indicado para próstatas de volume entre 30 e 80 ml, em homens que desejam preservar a função ejaculatória (já que, diferentemente do HOLEP e da RTU-P, não causa ejaculação retrógrada na maioria dos casos). O procedimento pode ser realizado em ambulatório, com anestesia local ou sedação leve, e o retorno às atividades é rápido.
A melhora dos sintomas ocorre progressivamente ao longo de 3 a 6 meses, e os resultados são duradouros. Estudos de longo prazo mostram que o Rezum mantém sua eficácia por pelo menos 5 anos. Como todo procedimento, tem indicações específicas e limitações — a escolha entre Rezum, HOLEP ou outras técnicas deve ser feita com o urologista, considerando as características individuais de cada paciente.
Outras opções de tratamento
Além do HOLEP e do Rezum, existem outras técnicas disponíveis para o tratamento cirúrgico da HPB. A vaporização fotosseletiva da próstata (PVP) com laser GreenLight utiliza um laser de comprimento de onda específico para vaporizar o tecido prostático, com boa hemostasia e recuperação rápida. É uma boa opção para pacientes anticoagulados, nos quais o risco de sangramento é uma preocupação maior.
A UroLift é um sistema de suporte uretral que implanta pequenas âncoras para afastar os lóbulos prostáticos da uretra, sem remover tecido. É realizado em ambulatório, com recuperação muito rápida, e tem a vantagem de preservar completamente a função sexual. No entanto, é mais indicado para próstatas de menor volume e em casos selecionados.
A cirurgia aberta — prostatectomia simples aberta ou por via laparoscópica/robótica — ainda tem indicação para próstatas muito volumosas em centros sem disponibilidade de HOLEP. Com o advento do laser de holmium, porém, essa indicação tornou-se cada vez mais restrita, já que o HOLEP consegue tratar próstatas de qualquer tamanho com resultados equivalentes ou superiores e menor morbidade.
Vida após o tratamento da HPB
A maioria dos pacientes experimenta melhora significativa dos sintomas urinários após o tratamento adequado da HPB. Com o tratamento cirúrgico, especialmente com técnicas modernas como o HOLEP, a melhora costuma ser dramática e duradoura. O jato urinário fica mais forte, a frequência urinária diminui, o sono noturno melhora e a qualidade de vida melhora substancialmente.
Após a cirurgia, é comum que haja um período de adaptação com urgência urinária e, às vezes, incontinência temporária. Isso ocorre porque a bexiga — que estava acostumada a trabalhar contra uma resistência aumentada — precisa de tempo para normalizar seu funcionamento. Exercícios do assoalho pélvico (Kegel) ajudam nesse processo de reabilitação.
O acompanhamento urológico regular é fundamental mesmo após o tratamento. Exames periódicos de PSA, ultrassonografia e urofluxometria permitem monitorar os resultados e detectar precocemente qualquer recorrência ou novo problema. O estilo de vida também importa: manter peso saudável, praticar atividade física regularmente, reduzir o consumo de álcool e cafeína e hidratar-se adequadamente contribuem para a saúde prostática.
Quando procurar um urologista?
Todo homem acima de 50 anos — ou acima de 40 anos com histórico familiar de doenças prostáticas — deve realizar consulta urológica preventiva anualmente. Mas se você já apresenta sintomas urinários, não espere: busque avaliação médica assim que notar dificuldades para urinar, aumento da frequência urinária, jato fraco ou qualquer outro sintoma que afete sua qualidade de vida.
A HPB é uma condição altamente tratável. Com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, é plenamente possível recuperar a qualidade de vida e prevenir complicações graves. O mais importante é não postergar o cuidado com a saúde.
O Dr. André Matos é urologista especialista em doenças da próstata, com ampla experiência em HOLEP, Rezum e outras técnicas modernas para o tratamento da HPB. Agende sua consulta e dê o primeiro passo em direção a uma vida com mais conforto e bem-estar.
